Conjecturas sobre a desclassificação da França e lições para o Gerenciamento de Projetos

 

Por: Alonso Soler e Vitório Tomaz

A metáfora da desclassificação da equipe da França da Copa 2010 pode ser analisada à luz da formação e desenvolvimento da equipe e de sua liderança, tal como num de nossos projetos.

Quando as coisas começam errado …

É evidente que a pressão internacional sobre a equipe foi imensa, depois que a França, conseguiu a sua classificação na prorrogação de um jogo contra a Irlanda, contando com a ajuda de um gol ilegal, na seqüência de uma escandalosa condução da bola com a mão do atacante e ídolo do time Thierry Henry. Se, por um lado, a equipe cujos ídolos jogam em times de outros países europeus, viu-se acusada de falta ‘fair play’, por outro, o poder econômico e a relevância da participação de uma seleção de destaque na copa falou mais alto e simplificou o fato culpando o erro do juiz. A FIFA fez que não viu (ou ouviu) o ocorrido, a França foi confirmada e a Irlanda excluída.

De fato, ninguém na equipe ficou confortável com a situação. Tratam-se de profissionais educados num modelo extremamente humanista, supostamente cultos e que, estão se acostumando a se considerar europeus, além de Franceses – cidadãos do mundo que se preocupam com suas imagens que certamente serão imortalizadas na história (a propósito, bem diferente de certos jogadores que atuam no Brasil e acham bonito se relacionar com bandidos).

O que isso tem a ver como nossos projetos? Tudo. Quantos projetos nascem sem propósito definido, sem senso de direção, ao sabor das canetadas de quem dispõe do poder de autorizá-los? Quantos projetos são iniciados objetivando resultados financeiros apesar dos impactos sociais e ambientais que podem provocar ? Quantos projetos estão desalinhados nitidamente dos valores pessoais e ética dos profissionais que o estão conduzindo ? Parece ser meio piegas essa colocação, mas, cada vez mais eu tenho reconhecido no pessoal do segmento do gerenciamento de projetos, uma preocupação clara com a preservação de seus valores e princípios como homens, cidadãos e profissionais. A pensar.

Sobre a liderança do técnico e as interferências externas …

Passado o fato da classificação, durante a preparação, muito se comentou sobre a falta de liderança do técnico Raymond Domenech. Por algum motivo, a integração da equipe foi freqüentemente comparada à situação de 2006, quando a equipe estava unida em torno do craque Zinedine Zidane, que servia como inspiração e liderança e que acabou sendo peça fundamental para a seleção chegar à final.

Patrice Evra que recebeu recentemente a braçadeira de capitão declarou: “Nós estamos sem este algo a mais para que sejamos um bom time, um time muito bom”, disse, admitindo que faltava alguém para comandar a nova safra de jogadores. O meia Sydney Govou acrescentou que a França só melhoraria o seu desempenho se estivesse unida, mas isto “não irá acontecer se jogarem um ao outro para baixo, colocando a culpa nos outros”, afirmou. Ou seja, a situação da equipe caminhava para a desagregação e a liderança do técnico foi muito questionada.

Nesse imbróglio, de forma obscura, emerge a figura do ex-jogador Zinedine Zidane que, supostamente, interferiu e estimulou uma “revolta” dos jogadores da seleção francesa contra o seu técnico, ao recomendar uma mudança tática na equipe. Segundo a imprensa, num primeiro momento, Domenech teria aceitado as mudanças em virtude do diálogo aberto com os jogadores. No entanto, quando soube que a idéia teria vindo de Zidane, ficou muito irritado e voltou atrás. Afinal, por que uma pessoa alheia, supostamente um concorrente, ao processo deveria dar ‘pitacos’ no seu trabalho?

Analise agora a situação do técnico Domenech à luz de seu projeto. Um ‘opinion maker’ forte, liderança carismática e reconhecida em sua área de atuação, de fora da equipe do projeto, acha-se no direito de opinar sobre a forma do Gerente direcionar o grupo. O que fazer? Complicado! Principalmente porque você, na posição de Gerente do Projeto, não é, necessariamente, um especialista reconhecido na área de atuação do projeto, mas sim um generalista, que merecidamente foi convidado a ocupar a posição de liderança frente ao grupo. Sim você queria estar ali, batalhou para conseguir essa posição e isso te orgulha muito. Sua família, seus amigos, seu círculo de relações estão orgulhosos também. Ai chega uma pessoa que fora preterida ao cargo e começa a minar a sua direção. 

Há que se frisar que esse tipo de situação pode ser bastante comum e freqüente nos projetos. Quantas vezes a sua competência como Gerente de Projeto foi questionada por especialistas de uma ou outra área? Quantas vezes você perdeu o controle de sua equipe por razões que supostamente desconhecia ? Quantas vezes você vivenciou um motim ‘a bordo’ de seu projeto ? Como você deveria agir então? Claramente identificando, em sua análise de ‘stakeholders’ contínua, os influenciadores que poderiam desestabilizar o seu grupo, tentar reconhecer os motivos que os faria agir desse modo e tentar tomar ações preventivas de modo a mitigar os efeitos danosos desses riscos. Tome cuidado! Sua posição como Gerente de Projetos é intrinsecamente uma posição política – não no sentido pejorativo que costumamos usar quando pensamos em Brasília, mas no sentido de influenciar e conseguir fazer as coisas acontecer.

A exposição do Gerente de Projetos será proporcional à complexidade, tamanho e importância do projeto que estiver conduzindo e, por isso, ele deverá tomar mais cuidado com a manutenção de sua liderança. Ele terá que saber lidar cautelosamente com as situações que surgirem, por um lado preservando a sua posição e demonstrando o controle da situação, por outro, sabendo incorporar as opiniões contrárias às suas que potencialmente possam apoiar a condução do projeto. Equilíbrio, quando viável é a posição mais adequada.

A situação da equipe Francesa chegou a tal ponto de desagregação que, durante os jogos da 1ª fase, o atacante Anelka foi cortado da delegação, após uma discussão com o técnico. O jogador teria dito alguns palavrões para o treinador no intervalo da disputa contra o México no sábado (20/Junho). No dia seguinte, em solidariedade a Anelka, os jogadores se recusaram a treinar e foram até o campo, onde o Capitão Patrice Evra entregou uma carta em nome da seleção comunicando a decisão de que não iriam treinar. Quando Evra falava com Domenech, o preparador físico, Robert Duverne entrou na discussão e quase ‘saiu no braço’ com o jogador. Sabendo que a situação já era pública, o treinador foi até a imprensa e leu a carta, que terminava com o seguinte parágrafo: “Não esqueceremos nenhum de nossos deveres. Faremos tudo individualmente, é claro, mas também num espírito coletivo, para que a França, na terça-feira à noite [contra a África do Sul], reencontre sua honra com um desempenho, enfim, positivo”. Todos os jogadores foram para o ônibus e o chefe da delegacão francesa, Jean-Louis Valentin classificou a atitude como uma vergonha e anunciou a sua demissão e retorno imediato à Paris.

A França jogou contra a África do Sul e perdeu o jogo e a vaga para a fase seguinte, retornando cabisbaixa para casa. Nesse ínterim, um representante do governo Francês tentou intervir em nome da imagem pública do país – imaginem o estrago.

Voltando ao mundo dos projetos, erros, erros e mais erros, podem levar o resultado do projeto ao fracasso. Cabeça quente, ofensas e ressentimentos, ações intempestivas, perda da credibilidade e da liderança do Gerente – sensação de isolamento, caos total. O que fazer quando tudo o que poderia ser feito já o foi e você se sente nessa situação ? Em primeiro lugar, fazer tudo para que a situação não chegue a esse termo. Mas se chegar, torcer ou provocar um fato novo, maior, capaz de reunir a equipe poderá ser uma opção. Encontrar um inimigo comum, real ou imaginário, declarar uma guerra – essa tem sido a alternativa de alguns governos quando se vêem às voltas com a perda da liderança. Outra opção é desistir, declinar da liderança, que por um lado pode parecer fraqueza e derrota, por outro, pode significar a possibilidade de minimização de danos sobre si mesmo e sobre sua reputação. Deixar que o projeto tome outros rumos, que outros tentem fazer melhor que você. Pode parecer altruísta, mas de fato, essa opção reforça a auto preservação, além de dar um novo fôlego ao projeto e aos resultados potenciais esperados dele. Sair antes que saiam contigo.

Por fim, a última (até então) da seleção Francesa, foi a imagem televisiva do técnico Domenech declinando o cumprimento do técnico adversário Parreira, após o final do jogo. Falta de educação, espírito esportivo? Ressentimentos pelo que ele poderia ter dito anteriormente a respeito da classificação da França? O que quer que seja não justifica a mácula deixada em sua imagem publica em rede internacional. Demonstrou toda a fragilidade de sua liderança, sua falta de controle emocional. Expôs o seu desconforto com a situação e a sua incapacidade de continuar a frente da equipe. Certamente outro técnico será anunciado brevemente. Triste fim para uma seleção campeã. Triste fim para um técnico renomado. Mas, nada de inesperado, afinal, medo, vergonha, ânimos arraigados, sentimentos a flor da pele são naturais nos seres humanos. Acontecerá novamente – em outro lugar e com outra equipe, com outro projeto. Por isso, esteja atento meu caro Gerente de Projetos. Tomara que não seja conosco.

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5 Responses to “Conjecturas sobre a desclassificação da França e lições para o Gerenciamento de Projetos”


  1. 1 Renato Cambraia junho 24, 2010 às 8:55 pm

    Parabéns!!!Muito boa a analogia! Explicação clara,muito bem conceituada e de grande valia. Cumprimentos a equipe e ao GP deste projeto.

  2. 2 Renato Grandini junho 25, 2010 às 1:40 pm

    Muito interessante a analogia e a forma de abordagem ao assunto. Prova que podemos refletir, sob a luz de projetos a partir de vários fatos do cotidiano.

    Força Brasil…

  3. 3 André Cruz junho 25, 2010 às 1:52 pm

    Excelente texto e analogia de igual excelência. Tenho restrições com o “Seres humanistas”, afinal, me valendo de conceitos Filosóficos e biológicos “Você faz o que faz porquê é o que é.” (Humberto Maturana – A Ontologogia da Realidade). O principal “gap” de liderança ao meu ver ocorreu quando o técnico não conseguiu passar e fazer com que a equipe estivesse comprometida por um resultado comum a todos e de interesse de 63,58 milhões de partes interessadas.
    A vaidade dos Franceses em apontar traidores, a vaidade do técnico em não reconhecer no Zidane uma liderança paralela de grande valia (Qual GP não gostaria de se valer de um “líder técnico” que fosse co-responsável por um ambiente de projetos harmonioso?) Quando os objetivos pessoais passam a ser maiores que os objetivos do projeto, as únicas saídas são as já citadas de forma brilhante pelos autores.

    Mais uma vez parabéns pelo post.

    André Cruz,PMP

  4. 4 Carlos Moro junho 30, 2010 às 11:53 am

    Alonso, Vitório e pessoal

    Realmente, concordando com os que já comentaram, achei muito pertinente a metáfora. Aprender com os erros dos outros é para os sábios… se, pelo menos, olhar para o caso dos franceses nos “modular” a atenção para os fatos que vivemos, para potencializar o aprendizado com nossos próprios erros, já terá sido de grande valia.

    De tudo o mais, destaco a atenção que foi dada aos VALORES das pessoas, e à crescente necessidade de fazer parte de projetos alinhados com eles que as pessoas vêm demonstrando. Isso sempre foi assim, mas a premência pela sobrevivência já foi desculpa para muitas barbaridades… muitas pessoas se dispuseram a trabalhar em projetos que desmataram, poluíram, sonegaram, exploraram o homem, segregaram, feriram… pessoas que “fecharam os olhos” para esses efeitos colaterais, como se isso “não fosse com eles”, com justificativas do tipo “se não for eu, outro fará” e outras auto-enganações similares. No longo prazo, os danos se acumulam e as pessoas não conseguem mais negar a tremenda falta de alinhamento entre as AÇÕES e as INTENÇÕES. O desgaste é grande e o acúmulo acaba por minar todo o resultado auferido… no final, não vale a pena.

    Muitos querem viver e trabalhar sem que isso seja necessariamente incompatível com os valores, com as crenças… em projetos, a liderança deve ser a primeira a verificar essa sintonia, e isso mereceria um processo de gerenciamento de projetos, algo do tipo “Gerenciamento da Ética” ou “Gerenciamento dos Valores”, onde as “boas práticas” poderiam ser declaradas e seguidas por uma quantidade cada vez maior de pessoas que, até então, sentiam-se sós.

    Muito legal vocês falarem disso. Parabéns.

    Abraços

  5. 5 bellonetom julho 2, 2010 às 2:34 pm

    Agora estamos aguardando uma materia tão bem feita como essa sobre a figura ridicula da seleção bresileira.


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